Arquivo do extinto blogue Esferovite- a vida em pedaços (13-08-2003/ 4-01-2006)

segunda-feira, outubro 20, 2003

Telefona-me

Estou aqui deitado a olhar para o telefone, deitado no escuro do meu quarto à espera que uma luz verde o invada e ele se encha do som irritante do telemóvel, irritante e, no entanto, sempre tão esperado, desejado, seja noite seja dia, à espera do sinal, do saber que vais chegar, do saber que ali estás, do outro lado, lá tão longe, mas ali, ali mesmo perto de mim. Telefona-me.

Estou sentado no sofá da sala, a olhar, entristecido, para a televisão, a brincar com o telemóvel na minha mão, deixo-o passear pelas minhas pernas, passo-a à outra mão, toco com ele nos joelhos, olho a televisão, mas depois também o écran do telemóvel, olho-o, inocente, como se sentisse que ia tocar naquele momento, como se te esperasse há muito tempo, eu espero-te há tanto tempo. Telefona-me.

Olho os jornais dos classificados pendurados na parede da biblioteca municipal, olho-os de uma ponta à outra, misturo-os com outros, passeio entre as fileiras dos livros, literatura, geografia, história, psicologia, filosofia, procuro as revistas, procuro as novidades, espreito os computadores, e o telemóvel no bolso da mala, a mão sempre a passar pelo forro, a tentar perceber se o modo vibração está a funcionar, a tentar perceber se alguém me vai falar, se alguém me vai dizer, seja o que for, seja o que for, seja o que for... Telefona-me.

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